Vila Real, Bragança, Viseu e Guarda. O que têm em comum estes distritos? Conseguem atrair empresas, mas têm dificuldade em fixar trabalhadores qualificados.

Se por um lado estas regiões com menor densidade populacional têm recebido fundos de apoio ao investimento privado do Portugal 2020 «bem acima do peso da população e do emprego», com um investimento global de 1,5 mil milhões de euros aplicado em 1830 projetos aprovados, por outro, isso não parece ser suficiente para as empresas reterem quadros técnicos-especializados.

Importa compreender o que está a falhar para que os perfis técnicos, sobretudo de engenharia, considerem que o Interior não é para eles.

A dimensão das empresas não será um problema, desde logo se fizermos uma breve análise sobre o tecido empresarial dos quatro distritos acima referidos. Vejamos:

Em Vila Real, em posição de destaque, temos a Kathrein Automotive, fábrica de antenas para automóveis que produz 25.000 por dia e sete milhões por ano (ECO, 2017).

Avançando mais no Interior, em Bragança, a multinacional francesa Faurecia, um dos maiores fabricantes mundiais de equipamento automóvel, abriu uma segunda fábrica com mais 400 trabalhadores. A nova unidade de componentes para automóveis junta-se à já existente, desde 2001, em Bragança, atualmente com 850 trabalhadores, e produz sistemas de escape para as fábricas das marcas Jaguar Land Rover, Skoda, Daimler, PSA, Renault, Nissan ou Ford (Eco, 2017)

Indo em direção a Viseu, deparamo-nos com um crescimento exponencial da indústria dos móveis, e surge num posicionamento de topo o Grupo Aquinos, cujas duas unidades industriais de Tábua e Nelas são responsáveis por 2000 empregos (Dados de 2016). Mas também a PME Movecho que se destaca pela evolução tecnológica, o que requer pessoal altamente qualificado.

Mas não só no mobiliário, Viseu vai revelando o seu potencial. Também na indústria farmacêutica se ultrapassa fronteiras nesta região do país: a Labesfal comercializa os seus produtos para vários países da Europa, mas também Médio Oriente e África.

Também a Indústria Automóvel parece ter chegado para ficar no Interior. A PSA Peugeot Citroen, 8ª maior exportadora portuguesa pretende continuar a crescer no Interior, uma vez que a Direção de Mangualde já anunciou que o terceiro turno vai começar a funcionar em abril, estando a decorrer a fase de contratação de 225 trabalhadores. No entanto, têm a necessidade de procurar trabalhadores mais longe, estando a trabalhar com todas as autarquias (Observador, 2018).

Ainda no setor automóvel, no final do ano 2017, Viseu prova mais uma vez que o envelhecimento não se apodera das indústrias. Exemplo disso foi a Eberspaecher que inaugurou a sua primeira fábrica de tecnologia em escape em Portugal, e que espera criar, em Tondela, cerca de 550 postos de trabalho até 2020 (Jornal de Negócios, 2017).

Guarda não é apenas a cidade mais alta do país, é também a que está em alta na indústria automóvel. Um dos motores dessa mesma indústria é a Coficab. Dá emprego a 600 pessoas e faturou 220 milhões em 2017. Mas não quer ficar por aqui. Em 2019 irá construir uma nova unidade fabril destinada a carros elétricos (Expresso, 19 maio), o que consequentemente significará necessidade de quadros especializados, prevendo-se a contratação de 300 trabalhadores (Jornal do Fundão, 2018).  Nesta corrida da indústria automóvel, entra também a Dura Automotive com 440 colaboradores, sendo a 5ª maior empresa do distrito. Em fase de crescimento está também a ACI, que faz proteções para recobrir cabos elétricos para a indústria automóvel. Também a Sodecia , graças a um recente negócio de produção de mecanismo para a nova caixa de velocidades de uma viatura Mercedes com produção prevista para o período de 2019 a 2028, irá contratar mais 60 trabalhadores.

Posto isto, e tendo em consideração o contacto direto da Wyser com alguns interlocutores de grupos empresariais de relevo, conseguimos identificar três pontos críticos para reflexão:

  1. A dificuldade em conseguir visibilidade junto das instituições académicas do Litoral;
  2. A dificuldade em reter quadros qualificados;
  3. O desfasamento da oferta curricular de algumas escolas profissionais face às necessidades do mercado.

Relativamente às sinergias com as universidades do Litoral, paulatinamente vão sendo fomentadas. Ainda recentemente, o reitor da U. Porto, após a assinatura de um protocolo de cooperação, comunicou que a colaboração com as autarquias do interior pode potenciar a empregabilidade dos estudantes da universidade e simultaneamente promover a sua fixação nas respetivas terras natais, o que contribuirá para a retenção de talentos. No entanto, enquanto empresa de consultoria de Recursos Humanos acreditamos que podemos dar uma maior sustentação a esta ponte entre instituições de ensino e empresas do Interior. Na medida em que possuímos um conhecimento, decorrente do contacto semanal com as mais diversas empresas, das necessidades de mercado de cada região, dos top profiles de cada setor assim como dos diversos enquadramentos salariais.

No que toca à retenção de quadros qualificados, aí a solução passará essencialmente pela administração local e administração central. Não só focando os benefícios fiscais, mas sobretudo atraindo uma diversidade de serviços para as regiões.

A inadequação da oferta curricular da formação profissional tem vindo a ser identificada como um problema pelas grandes indústrias do Interior. Que acarreta a médio-prazo uma evidente dificuldade em encontrar mão-de-obra especializada. Para contrariar esta tendência, este ano, quatro empresas do setor automóvel além de participarem da definição do plano curricular de um curso de especialização, decidiram em conjunto com o Instituto Politécnico da Guarda disponibilizar estágios. Desta forma, as empresas ganharão uma bolsa de especialistas, o que poderá contribuir para fixar mão-de-obra especializada.

O que importa reter, é que pese embora as ameaças que atingem o Interior, há um manancial de oportunidades a eclodirem. Mas para que se transformem em realidades é crucial que haja um genuíno interesse por parte dos principais stakeholders: Administração Central, Administração Local, Instituições de Ensino e Indústrias. Sendo que consideramos que, enquanto empresa de consultoria de Recursos Humanos, temos também um papel fulcral neste desafio de promover a atração das indústrias do Interior.

 


Susana Araújo
HR Consultant
Engineering & Industry – Wyser Portugal